Minha segunda matéria
Brancos e negros mais distantes no ensino superior
Lênin Willemen com Agência Brasil
Pesquisa divulgada hoje pelo IBGE com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007 aponta que as desigualdades sociais entre brancos e negros se agravaram na última década. Em 1997, um a cada dez brancos (9,6%) tinha nível superior completo. Essa proporção era de um para cada 50 (2,2%) entre os de cor preta e parda. Em 2007, esses percentuais são de 13,4% e 4% respectivamente.
Carolina Pessoa, de 20 anos, branca, é estudante do terceiro período de Comunicação Social da UERJ, e diz que a maioria de seus amigos entrou na universidade pela política de cotas: "Aqui na universidade, a maior parte das pessoas não é nem 100% negra nem 100% branca, são misturadas. E muitas vezes, quem entra, não consegue concluir o curso se não tiver uma bolsa para ajudar, porque a faculdade toma todo o tempo". Sobre o sistema de cotas, Carolina comenta: "Acho uma boa idéia. Um pouco mal aplicada, mas sou 100% a favor. É a única maneira de tentar equilibrar um pouco essa situação caótica do ensino em todos os níveis". A estudante é campista e está estudando na capital há um ano e meio.
Bruno Oliveira é aluno da Faculdade de Odontologia de Campos. Negro, 21 anos, ele diz que ser contra o sistema de cotas. "Acho que o sistema de ensino deveria ser reformulado para dar condições a todos de disputarem as vagas das universidades de igual para igual." Bruno ainda conta que existem apenas três negros na sua turma. "É um percentual muito baixo", afirma. A pesquisa mostra que a situação na classe de Bruno não é a exceção: A taxa de freqüência das pessoas de cor preta e parda às instituições de ensino superior não alcançou, em 2007, o patamar que os brancos tinham dez anos antes. A diferença a favor dos brancos, em vez de diminuir, aumentou nesse período: em 1997, eram 9,6 pontos percentuais aos 21 anos de idade, enquanto em 2007 esta diferença saltou para 15,8 pontos percentuais.
A professora de Sociologia do curso de Comunicação Social da FAFIC (Faculdade de Filosofia de Campos), Crisolícia Regina também se posiciona contra o sistema de cotas. "O sistema de cotas, na verdade, é uma política que é limitada em si mesma, porque não alcança quem deveria alcançar e não corrige a distorção social que o Governo pensou que ia corrigir".
Crisolícia também afirma que a própria lei de cotas castra as pessoas pardas e negras estabelecendo os guetos. Ela afirma ainda, que a cota não é a solução, mas continua segmentando quem já era segmentado. Na verdade própria legislação está atrelada a um quesito que diz que as universidades aderem ao processo de cotas por opção. E, na opinião da professora, geralmente as instituições que fazem essa opção, são as universidades que têm menor índice de qualidade; então os aprovados por cotas acabam permanecendo apartados de um ensino de qualidade.
A professora conclui: "Há um processo histórico nisso tudo, onde há um maior índice de agrupamento nas categorias menos favorecidas, então se você tem uma privatização do ensino superior, logicamente quem já é desprivilegiado socialmente quanto ao poder aquisitivo, também é desprivilegiado no acesso ao ensino. Na sala de aula a gente percebe essa diferença. Com uma enquete rápida você percebe que a quantidade de negros é muito menor do que o número de brancos”. Se não fosse o resultado da pesquisa, os mais céticos poderiam afirmar que Crisolícia é professora de Bruno, mas a “coincidência” exposta na matéria é apenas comprovação de que negros e brancos seguem em caminhos distantes no Ensino Superior do Brasil.